Corino Urgente - Crônicas

Diretor-Presidente: Corino Rodrigues de Alvarenga Fundação: 11/5/2009
corinorodrigues@hotmail.com

Impressionante! Maior cachorro do mundo nem precisa latir para assustar


Cão Zeus é gigante por natureza e assusta
14/9/2012 0h40 - Você gosta de cachorros? E de cavalos, você gosta?
Não estranhe a nossa pergunta, mas é que Zeus é uma mistura dos dois.
O cão da raça Dogue Alemão entrou para a edição 2013 do Guinness - O Livro dos Recordes. Ele foi eleito o maior cachorro do mundo, porque mede 111,76 cm.
Parece uma fera jurássica, mas a dona dele, Denise, garante que as aparências enganam. Zeus é super dócil e come cerca de 14 kg de comida todos os dias.
Agora, se ele come tanto assim, imagina o quanto ele não... vai ao toilett! Pesando 70 kg, Zeus assusta muita gente e nem precisa latir para isso.
Não se passeia com um cão desses. Ele passeia com você!  
— Nós tivemos que comprar uma van para transportá-lo. Denise diz que se Zeus der uma leve pisada em um de seus pés, você ficará com uma marca.
Se você jogar um graveto para Zeus buscar, ele deve trazer o tronco de uma árvore ou, talvez, um carro. R7

Crônica/humor: Governo Leodice é muito pior do que suco de jiló

28/5/2012 1h8 - Está confirmado pelo SCU - Serviço Corino Urgente: o governo Leodice é pior do que suco de jiló. E sem direito a açúcar.
Quem votou em Leodice, além de arrependido, está pagando a conta até hoje. E pense numa conta cara.
Manter a sanha do maridão esperto não é fácil. O homem tem mais fome do que o Leão do IR. Morde sem dó nem piedade.
Piedade? E Hitler algum dia nessa vida soube o que é piedade? Pobre que se exploda, como diria Chico Anysio.
Mas com Leodice é diferente: pobre que pague os impostos e morra à míngua, sem atendimento médico.
Ambulância nem pensar. Médico também não. Remédio? Acabou. Exame? Só pagando, nego!
Jacobina não pode parar, dizia o bordão eleitoral.
E Jacobina parou.
Agora vem o governo da transformação, dizia outro bordão.
Que nada! A transformação não veio. E se veio, cá entre nós, foi para pior. E bota pior nisso.
Os dois matadouros municipais, digo, hospitais, estão que nem o circuito Barra-Ondina em dia de Carnaval.
Quem manda é o Rebolation!
E com direito a sangue, muito sangue e atestado de óbito.
E o Samu? O Samu sumiu!
Claro, claro. Samu sim, mas com responsabilidade.
E cadê Valdice? Está em casa recebendo as últimas ordens do maridão ditador.
Persegue fulano, lasca com a vida de cicrano, exonera Maria, nomeia João.
Xinga a oposição, dê um cala-boca no radialista, que está falando demais.
Manda a ambulancinha pro Batata. Dona Raimundinha é nossa autarquia eleitoral. Tem mais de oitenta votos e é tudo baratinho.
Ela não é empreiteira, não chantageia, não processa a prefeita, não exige propina depois.
A velha é quase uma santa.
Com Leodice, Jacobina se transformou nisso.
Virou um circo com palhaços chatos e muita maracutaia. E que circo sem graça, mané!
Para o maridão da prefeita, a transformação está funcionando que é uma beleza.
Ele está com as burras cheias de cascalho.
Enquanto isso, o povão está lascado, ferrado e mal pago.
Mas com direito a muita obra eleitoreira daqui pra frente. Que é pra enganar os bestas!
Agora passa a régua, que a conta não fecha.
É muita chatice (e cretinice!) no circo de Leodice. E com direito a canalhice.
O SCU - Serviço Corino Urgente - confirma: Leodice é pior do que suco de jiló. E sem direito a açúcar.
Que saco!
CORINO ALVARENGA
PS: Muito azedo nesta segunda-feira. 

Oração do Marido de Prefeita

"Partido nosso que estais no poder,
Santificados sejam os nossos advogados
Venha a nosso reino a sagrada comissão de 10%
Que a prefeita faça sempre a minha vontade
Assim na Prefeitura como no Hospital
A propina nossa de cada dia nos dai hoje
Um cala-boca a quem nos ofende
Assim como nós os corrompemos
E não nos deixeis sem a verba da saúde e da educação
Mas livrai-nos do Tribunal. Amém."
Aconselha-se tomar um cálice de vinho. Legítimo do Porto, claro. E comprado com o sagrado dízimo do contribuinte.

Mensagem: Dois Cavalos

Na estrada de minha casa há um pasto. Dois cavalos vivem lá. De longe, parecem cavalos como os outros cavalos, mas, quando se olha bem, percebe-se que, um deles é cego.
Contudo, o dono não se desfez dele e arrumou-lhe um amigo: Um cavalo mais jovem. Isso já é de se admirar.
Se você ficar observando, ouvirá um sino. Procurando de onde vem o som, você verá que há um pequeno sino no pescoço do cavalo mais jovem.
Assim, o cavalo cego sabe onde está seu companheiro e vai até ele. Ambos passam os dias comendo e no final do dia o cavalo cego segue o companheiro até o estábulo.
E você percebe que o cavalo com o sino está sempre olhando se o outro o acompanha, e as vezes, para pra que o outro possa alcançá-lo. E o cavalo cego guia-se pelo som do sino, confiante que o outro o está levando para o caminho certo.
Como o dono desses dois cavalos, Deus não se desfaz de nós só porque não somos perfeitos, ou porque temos problemas ou desafios. Ele cuida de nós e faz com que outras pessoas venham em nosso auxílio quando precisamos.
Algumas vezes somos o cavalo cego guiado pelo som do sino daqueles que Deus coloca em nossas vidas. Outras vezes, somos o cavalo que guia, ajudando outros a encontrar seu caminho. E assim são os bons amigos. Você não precisa vê-los, mas eles estão lá.
Enviada pelo leitor Moacyr Lopes

 

O Prefeito

Mamãe, agora eu quero ser prefeito
Garanto que vou me candidatar
Do jeito que já sei mentir bastante
Acho que de hoje em diante minha vida vai mudar

Pra quem me apoiar eu dou abraço
Se fala mal de mim eu dou dinheiro e ele muda
E vai ficar tudo do mesmo jeito
Se eu ganhar para prefeito
É o mesmo "deus nos acuda"
(e vai ficar tudo do mesmo jeito)
(se eu ganhar para prefeito)
(é o mesmo "deus nos acuda")

É a cidade esburacada (ai ai ai)
E o povo vivendo mal (ui ui ui)
Mas quando a coisa ficar preta
Eu invento uma micareta
E faço aquele carnaval

Trago um conjunto da bahia (ai ai ai)
Pago mais do que ele merece (ui ui ui)
Se pagar 100 digo é 500
Desviando os 400 meu saldo banqueiro cresce

Ai o povo esquece tudo (ai ai ai)
E no embalo desse som (ui ui ui)
A cidade fica feliz
E ainda tem gente que diz: "eita, que prefeito bom!"

(a cidade fica feliz)
(e ainda tem gente que diz:)
("eita, que prefeito bom!")
Ton Oliveira

As sogras

As sogras fazem parte do imaginário popular. Há piadas, estórias e histórias envolvendo sogras.
Hoje quero fazer aqui uma justiça. Não vou falar mal das sogras nem inventar piadinhas sem-graça. Quero apenas falar sobre essas senhoras tão injustiçadas na era contemporânea em que vivemos.
As sogras nos dão as filhas que, belas ou bem torneadas na época do namoro, noivado e casamento – caso se respeite essas três fases, é evidente – e que, com o passar do tempo, deixam de ser belas ou bem torneadas e acabam virando o quê? Sogras.
É a lei do universo. Está escrito. É como o jogo-do-bicho: vale o que está escrito. E pronto.
Quando as rugas chegam, meu amigo, não tem jeito. O diabo pega e vai derrubando tudo. Tudo cai: os seios vão parar na barriga e a barriga, nos joelhos.
É bíblico. Se não é, deveria ser. Esqueceram esse capítulo.
Então não adianta malhar as sogras. A sua filha, tão bonitinha hoje, vai virar um dia... sogra.
E vai ficar também ranheta, estridente, barulhenta, escandalosa e, sobretudo, ciumenta. Sogra só não tem ciúme do sogro. Tem, sim, ódio. Faz parte da idade.
Mas as sogras têm uma grande virtude: a de fazer como ninguém a lazanha do domingo. Aí é que o bicho pega. Pega e come. E como come! 
Eu sempre digo que sogra é um freio – o que ela quer, a maioria, digo, é mudar você. Você já parou para pensar no que você faz, no que você pensa e no que você diz?
Se você fizer essa reflexão, talvez chegue à conclusão de que cada um tem a sogra que merece.
E vou mais além: você é possivelmente filho de uma sogra. E não se engane: a sua mãe não é obrigatoriamente boa como mãe e boa como sogra.
Talvez ela desempenhe a primeira função com afinco e a outra, nem tanto. Ou talvez até ela seja boa como sogra e ruim como mãe.
Tem a vice-versa, meu amigo. E você, que é um genro ou é uma nora de carteirinha, já beijou a sua sogra hoje? Aposto que não.
Quantas vezes você falou mal dela hoje? E quantas vezes falou bem da coitadinha?
Se você é homem, um dia será sogro – o equivalente exato.
Se for mulher, uma dia será sogra. E terá genro ou genros ou nora ou noras para pegar no seu pé. A gente paga aqui mesmo. Deus lançou o primeiro crediário do universo e as prestações têm que ser pagas em dia.
O rapaz lá de cima não gosta de calote. Nem de caloteiro. Mas, voltando a essas pobres e injustiçadas sogras, eu só tenho a dizer o seguinte para pôr fim a essa prosopopéia toda:
- A tragédia de um casamento é quando o sujeito percebe que a verdadeira serpente não é a sogra.
E quase sempre isso ocorre.
Por quê? Porque a maioria é injusta com as sogras.
O problema, meu amigo, minha amigo, está na chamada incompatibilidade das relações interpessoais contínuas, como diria a Psicanálise.
Numa linguagem simples: conviver todo dia, com as mesmas pessoas, enche o saco.
As crises, portanto, são normais.
Absolutamente normais.
Assim, portanto, as sogras não podem levar a culpa por tudo.
E, concluindo, repito a pergunta:
- Você já beijou a sua sogra hoje?
Faça isso, meu amigo, minha amiga: dê, nem que seja, um beijinho na testa. De leve.
Nem pense em selinho. Selinho é coisa da Hebe, que também deve ser sogra.
Aí também já é demais...
CORINO ALVARENGA

Político honesto discursando... Existe?

Ano de eleições, da ficha limpa. Será? 
Em algum lugar por este Brasil afora, deve ter um político honesto discursando mais ou menos assim:
– Pessoal, eu gostaria primeiro de dizer para vocês que não vou gritar. Vou falar! E que também não ficarei dando socos no ar, pois acho isso muito esquisito. Quero dizer para todos que o fato de estar me candidatando para um cargo político, não me coloca em condição superior ou inferior a qualquer um de vocês. Se eleito, apenas passarei a exercer uma atividade de funcionário público contratado pelo povo. E isto não me dá o direito de fazer o que bem entender... muito menos o que não entendo...
Hoje neste comício com certeza vocês não irão ouvir da minha boca nenhuma promessa de emprego, ou de melhora na educação. Por vários motivos! Primeiro porque a questão do desemprego não é uma decisão política isolada. Um político dará fim ao problema? Não! Nada disto. Existe toda uma lógica capitalista selvagem por trás do problema do desemprego.
O capitalismo sobrevive na ordem da oferta e da procura, e não podemos ser tão ingênuos e achar que o desemprego não está inserido nesta lógica. É claro que está! Pois manter um mínimo possível de desempregados, é uma das maneiras de deixar os salários baixos. Ou seja, muita mão-de-obra, baixo salário! É cruel? Mas é assim! Outra coisa que com certeza vocês no irão ouvir esta noite, como já disse. Coisa do tipo: vou melhorar a educação. Primeiro porque não vejo nada de errado com ela. Sempre ouço algumas pessoas falarem que: “antigamente a educação era bem melhor, nós aprendíamos valores...”.
Ou, “o jovem de hoje não quer nada com nada...”, e por aí vai. Pois não acredito que esses argumentos tenham sentido. Os corruptos de hoje, eram os alunos daquela escola do passado que ensinava valores! E os jovens de hoje apenas responde aquilo que a sociedade dá e cobra deles. Sociedade inerte! Jovem inerte! Sociedade hipócrita! Jovem hipócrita! A escola de hoje responde com muita eficiência as exigências do capitalismo selvagem.
E por isto ela é ótima! Vocês me entenderam? Não depende de um político, depende do povo! Acorda povo! Desculpe-me! Levantei um pouco a voz. Mas como ia dizendo, o povo, ele sim pode e deve....
É, eleitor, não é fácil.
Se vocês não andam ouvindo políticos assim por aí, desculpem-me. Mais uma vez vamos desperdiçar nossos votos, e, com certeza, estamos sendo enganados. Carlos Matias


Óculos de político

Dr. Juvenal Pica Pau Chateaubriand Bengala saiu novamente candidato à reeleição como deputado federal.

Médico oftalmologista, resolveu oferecer aos seus eleitores justamente o que mais tem a oferecer: os préstimos de médico oculista e de dono de uma grande rede de óticas espalhadas pelo País inteiro.

Ele estacionava a sua van numa determinada cidade, ia para o comitê eleitoral do partido, fazia propaganda, distribuía senhas e atendia a todo mundo no mesmo ritmo: frenético, alucinante.

Naquela segunda-feira, chegou à cidade de Pau-de-Fora-do-Torto, um vilarejo muito pequeno localizado no Estado do Ceará. Havia na porta do comitê improvisado de consultório oftalmológico umas trezentas pessoas, pelo menos.

- Bem, meu povo, vou começar já o atendimento. Quem é cego, vai deixar de ser, e quem enxerga pouco, vai passar a enxergar mais do que eu. Vamos todos se achegando, se aproximando, que o seu deputado vai começar a atender todo mundo, já, já. Os estrábicos para cá, os quase cegos para lá, aqui ficam os como astigmatismo. Vesgos recentes ficam naquela outra fila ali...

E assim o deputado baixinho, com o seus óculos de fundo de garrafa, no alto de seus sessenta anos, começou o atendimento. Ligeiríssimo como um coelho atrás de uma fêmea no cio, atendeu as trezentas e poucas pessoas em menos de duas horas.

Era olho no olho, caneta na mão, riscos na receita e um tal de “volta tal dia pra pegar o seu óculos, minha filha”. E no final, a sentença, claro:

- E não se esqueça do meu número. Vote Juvenal Pica Pau, o seu federal. E tome receita e tome promessa de óculos no dia tal. No dia marcado, as pessoas iam ao comitê eleitoral, ali bem no fechamento da campanha eleitoral, a três dias da eleição, e pegavam os seus óculos, e, claro, também o “santinho” do doutor Juvenal Pica Pau, o seu federal.

A velha Raimundinha das Dores também passou pelo mesmo processo: senha, fila, atendimento, receita e óculos. Melhor, e “santinho” do Dr. Juvenal Pica Pau, o seu federal.

Naquela correria, doutor Juvenal entregou à velha Raimundinha o seu par de óculos, entregou os “santinhos” e deu recomendações à família. “Beijos nos cachorros e chutes nas crianças, minha menina”, disse, bonachão.

Dona Raimundinha saiu dali com os seus óculos na cara e foi direto para a pequena feira livre da cidade para comprar legumes, frutas, farinha, baião de dois, etc.

Assim que chegou a uma banca de frutas e legumes, ajeitou os óculos e perguntou para o feirante, um senhor de uns cinqüenta anos, o seu Freitas:

- Seu Freitas, quanto custa esta linda melancia?

- Dona Raimundinha, por favor, dona Raimundinha... A senhora não está enxergando bem, não? Isso não é melancia, não. Isso é um limão.

E dona Raimundinha foi de volta à procura do candidato a deputado para trocar os óculos. Lá chegando, encontrou-se finalmente com Dr. Juvenal Pica Pau, o seu federal.

CORINO ALVARENGA


Hoje não vou escrever

Hoje tomei uma decisão: não vou escrever a crônica do dia.

Em primeiro lugar porque não tenho assunto; em segundo porque não estou a fim mesmo. Pronto: decisão é decisão. E mais: se eu fosse escrever, diga-me aí, iria escrever sobre o quê? Iria escrever sobre as crianças abandonadas, sobre uma nova descoberta do mais brilhante cientista do planeta, sobre as relações políticas do governo com o Congresso, sobre a necessidade de investimentos na educação, sobre o... Não.

Gostaria de escrever sobre um tema diferente. Mas o problema é que nem o tema apareceu nem a inspiração também. Portanto, não vou escrever. Poderia escrever sobre a mais bela das mulheres, Maria, a mãe do Menino Jesus. Mas todo mundo já escreveu ou já falou sobre ela.

Eu não iria escrever sobre Juliana Paz ou Camila Pitanga. Maria está muito acima delas. E em todos os sentidos. É isso, amigo: estou sem assunto mesmo. Não pretendo hoje escrever sobre agricultura, relações entre pais e filhos, enriquecimento de urânio no Irã e as prováveis crianças radioativas do futuro, etc, etc, etc...

Eu poderia escrever sobre o amor. Sabe que daria um bom tema? Mas, pensando bem, ninguém melhor do que William Shakespeare para tratar desse assunto tão importante.

Porém, há um assunto sobre o qual eu poderia explorar hoje: a incapacidade de se escrever quando não se tem assunto. Nem inspiração. É como dirigir numa noite sob chuva forte com os faróis do carro funcionando só na luz baixa. Você só vê o vulto das árvores e das casas, mas não vê o principal: o asfalto. Seria como ver o vulto da floresta toda, mas não a árvore que está a sua frente.

É por isso que tomei a segura e pensada decisão de não escrever hoje. Mesmo porque seria um desperdício de tempo e paciência tanto para mim quanto para o prezado leitor e para a prezada leitora também. E decisão, meu amigo, minha amiga, é decisão. Está tomada e pronto: hoje não vou escrever.

E quer saber de uma? Terça-feira, mesmo não sendo dia de descansar, é sagrado, está na Bíblia, está no calendário de terças-feiras da associação dos cronistas, está no manual do trabalhador: quem não tem assunto, não deve escrever às terças-feiras.

E quem não tem assunto, meu amigo, não pode ser tachado de preguiçoso, é evidente.

Só estou aqui avisando desde o título; e, quem chegou até aqui, não poderá alegar desconhecimento.

Amanhã e eu escrevo. Amanhã será um dia maravilhoso para escrever.

Hoje só vou descansar e pensar no que vou escrever amanhã.

Hoje só vou tomar umas cervejinhas. Com moderação, claro. Sem exagero. No máximo, umas duas. Talvez três. Tudo bem, tudo bem. Estourando quatro. E a saideira depois, que ninguém é de ferro.

Mas voltando ao tema central da crônica...  Espera aí... Eu disse tema central? Crônica? Desculpe-me. É a força do hábito.

Mas, considerando que esta seja uma crônica, o tema central seria “não vou escrever hoje”, e, portanto, trocando tudo isso em miúdos, o que posso dizer – escrever nunca! – é que pretendo pôr um final nesta prosopopéia toda. De qualquer forma, a justificativa já está quase pronta.

E, sabendo o leitor e a leitora que eu não vou escrever hoje, é de bom alvitre que entendam bem a minha decisão. Não é nada pessoal. É apenas falta de assunto mesmo. Tempo, não. Tempo eu tenho de sobra. O que está faltando é falta de assunto somada à falta de boa vontade.

Amanhã eu volto. E com tudo.

Se Deus quiser.  

Hoje está decidido: não vou escrever. Juro por Deus.

CORINO ALVARENGA

 

Contículos 2

Dois homens tramam um assalto.

Valeu, mermão? Tu traz o berro que nóis vamo rendê o caixa bonitinho. Engrossou, enche o cara de chumbo. Pra arejá.

Podes crê. Servicinho manero. É só entrá e pegá. Tá com o berro aí? Tá na mão.

Aparece um guarda.

Ih, sujou. Disfarça, disfarça...

O guarda passa pelos dois, que fingem estar discutindo.

Discordo terminantemente. O imperativo categórico de Hegel chega a Marx diluído pela fenomenologia de Feurbach.

Pelo amor de Deus! Isso é o mesmo que dizer que Kierkegaard não passa de um Kant com algumas sílabas a mais. Ou que os iluministas do século 18...

O guarda se afasta.

O berro, tá recheado?

Tá.

Então vamlá!

***

Desejável.

- Meu bem... Você está deslumbrante!

Tudo para você, querido.

Esse penteado...

Fui a cabeleireiro e pedi um corte novo para o meu maridinho me achar desejável. Fui ao maquiador e pedi que me deixasse bem bonita e sexy para atrair meu maridinho. Comprei esta camisola provocante para enlouquecer você.

E conseguiu, meu amor. Você está...

Não me toca senão estraga tudo!

***

O encontro. Um homem livra-se de todos os seus bens materiais, abandona a família e vai viver no deserto. Leva o suficiente para sobreviver no deserto durante um ano. Não fazendo nada, só olhando o sol de dia e as estrelas à noite.

Quer se encontrar com Deus e não quer nada à sua volta. Nada que distraia sua atenção, nada que confunda sua visão no caso de Deus aparecer. E o deserto é nada para todos os lados. Nada de horizonte a horizonte. Mas de tanto olhar o sol e examinar os horizontes esperando ver Deus, o homem fica cego.

É socorrido e levado para um hospital numa cidade grande, e, incapaz de ver o que o cerca e distinguir o sono da escuridão da cegueira, mergulha em si mesmo - e encontra Deus, que o recebe com um "alô" amistoso.

- Eu queria muito encontrá-lo - diz o homem.

- Eu sei, eu sei.

- Fui procurá-lo no deserto, despojado de tudo, livre da civilização...

- Pois é, foi no lugar errado. Acontece muito. Eu estava aqui todo este tempo.

- Esperei você em vão.

- Para dizer a verdade, não gosto muito de lugares ermos. A gente começa a pensar demais, a se autoquestionar... E a solidão? Prefiro lugares onde há gente e movimento. Bom é civilização.

- Mas ninguém se lembra de procurar você dentro de si.

- Pois é. Querem espetáculo. Visões no deserto. Epifanias. Conversões cinematográficas. Não é o meu estilo.

- Mas...

- Vê se dorme um pouco. Amanhã a gente conversa. Agora você sabe onde me encontrar.

Luís Fernando Veríssimo

 

Ser filho de médico

“Sou viciado em bulas. Principalmente em reações adversas. Sinto todas”

*José Simão

Meu pai era médico, meu irmão é médico e eu sou hipocondríaco. O dia em que não tomo remédio algum, tomo um tylenol. Prá garantir!

Crescer entre médicos é crescer ouvindo: espasmos, baixo ventre, tromboflebite, plasil, nádegas, injetável e me liga daqui três dias. E a pior coisa que podia acontecer com um hipocondríaco foi o que aconteceu comigo: ficar doente em Istambul! E ler as bulas em turco! Desespero total, a única palavra que entendia: tablets! Sou viciado em bulas.

Principalmente em reações adversas. Sinto todas! A mais preocupante, por causa do meu trabalho, é: diminuição da acuidade mental! E a melhor consulta que tive até hoje: “Doutor, toda vez que eu aperto aqui, dói”. “Então porque aperta?” respondeu o médico! Meu pai era clínico geral das antigas, atendia doentes em casa. Esse é o meu sonho de consumo: ser atendido em casa. O apogeu do hipocondríaco!

Quando ele ia ao hospital, eu ficava passeando com as freiras e comendo gelatina de hospital. Mas devo ter visto alguma coisa grave que apaguei da memória porque hoje não consigo entrar em hospital, tremo como vara verde e sinto que vou desmaiar! Quando atendia doentes na região da 25 de Março, me deixava no restaurante da dona Vitória, onde uma roda de libanesas vestidas de preto amassava quibe cru, e sempre sobrava pra mim. Talvez o quibe cru tenha me deixado tão forte!

O bom de ser filho de médico é se sentir a vontade no mundo dos remédios. O ruim é voce se achar capacitado para se automedicar e medicar os amigos. “Plasil não, é melhor tomar buscopan”. “Vagostesyl é muito fraco, toma logo um lexotan”. Eu sou do tempo do vagostesyl! E o pensamento básico do hipocondríaco quando um amigo ou parente de amigo está doente: se fulano está com isso, eu também estou.

Se fulano teve aquilo, eu também tenho. E a hilária definição de urologista: “urologista é aquele que olha pro seu pingolim com desdém, pega com nojo e cobra como se tivesse chupado”. E para terminar tenho que confessar um coisa que realmente me envergonha: eu minto para os médicos!

* José Simão é colunista do jornal Folha de São Paulo


Transa cowboy

Uma amiga me contou que a pior transa é a cowboy. Estávamos conversando ontem, entre uma cervejinha e outra, e ela saiu com essa. Larissa é assim mesmo: extravagante, surpreendente, sui generis.

Aliás, para dizer logo a verdade de pronto, ela não gosta de música sertaneja, prefere Cazuza e Caetano, e adora tirar onda com os caipiras como este cronista.

Eu não tenho culpa de ter nascido caipira, de gostar de moda de viola e de ser amante do catiretê, ou tenho culpa de ter nascido assim? Mas a desbocada saiu com essa. E me custa contar logo de imediato o que a moça teve a ousadia de dizer. Tenho cá os meus princípios e não iria emporcalhar o meu trabalho com uma picardia – ou seria uma promiscuidade? – dessas.

Mas, ela baseada na brutalidade do mundo dos rodeios e na passividade das mulheres diante de tamanho machismo, resolveu abrir o jogo e dizer o que é mesmo a transa cowboy.

Só que, antes de falar sobre a tal transa cowboy, eu quero abordar a importância do mundo dos rodeios na vida dos povos sertanejos de minha terra, o Mato Grosso do Sul, de Goiás, de Minas, do Paraná, de Santa Catarina, de São Paulo, e de vários Estados brasileiros.

O mundo das montarias é fascinante. Além de belíssimo espetáculo, ainda que desagrade às entidades defensoras dos direitos dos animais, o rodeio mexe com a economia dos municípios, empolga jovens com talento para montar em touros e cavalos e faz do caipira da roça um cidadão “chique no úrtimo”.

É a redenção do tabaréu. É a sua vitrine. Com as bênçãos de nossa Senhora Aparecida. Tudo bem, tudo bem. Você está curioso para saber como funciona a transa cowboy? Tudo bem, tudo bem. Eu vou contar. Só não sei se será censurada.

Talvez o horário não seja próprio. Talvez o patrocinador não aceite esse tipo de coisa. Mas, se até em novela das sete, há promiscuidade, por que não posso contar aqui uma coisa dessa?

Então lá vai. E segura aí firme, peão!

A transa cowboy, segundo me contou a amiga Larissa, funciona assim: o sujeito está com a mulher na cama, numa montaria perfeita, segura em seus cabelos - como se fosse um cowboy no brete, agarrando a rédea e esperando a hora de viajar na arena -, dá um tapa bem firme, trabalha a espora e grita em alto e bom som o nome de outra mulher.

Quer saber o resultado? Se o cara for cowboy mesmo, ele aguenta o tranco e fica oito segundos em cima dela.

CORINO ALVARENGA

 

Baianinho da Rodoviária na Bahia

Um dia seria inevitável: Baianinho da Rodoviária, por ser baiano, teria que retornar à Bahia.

Mas isso já não é novidade: Baianinho faz isso, ao lado dos amigos Nivaldo e Alberto Porto, praticamente todos os anos. É sagrado. É batata. Já ao chegar à pequena Mairi, o trio de cassilandenses percebeu que em Mairi não tinha jeito.

A terra natal de Baianinho, afinal de contas, só tem uma pequena rodoviária e uma minúscula, quase inexistente, pensão.

O jeito foi se refugiar numa pousada em Várzea da Roça, uma cidade de sertão, cravada no semi-árido baiano, terra boa para cultivar sossego, muito sossego.

Baianinho da Rodoviária, já sentindo a quentura do lugar, foi a um restaurante.

Pediu à garçonete, que era a mulher do dono do estabelecimento, educadamente:

- Minha senhora, me dê cristal.

- Cristal? O senhor vai comer minério? O senhor é macrobiótico?

- Não, minha senhora. Eu sou é etílico-biótico.

- Mas Cristal não é pedra, não é mineral?

- Nunca foi. Cristal é a minha cerveja favorita, senhora. Não é fazer merchandising, não, mas ela é boa pra chuchu.

- O senhor não vai encontrar essa marca de cerveja aqui, não, moço. Na Bahia, só tem Brahma, Skol, Sol, Antactica, Nova Schin...

- Com esse calor de tirar pica-pau do oco, vai qualquer uma.

Baianinho ficou pela Bahia por uma semana. Foi o suficiente para começar a preocupar as autoridades locais. Não se sabe o porquê, mas houve um início de rebuliço pela cidade e região. O nível local de estresse começou a aumentar. Até as igrejas começaram a andar mais cheias.

Aí o delegado Sabino descobriu o motivo de toda aquele clima de agitação. Todo bom bebedor de cerveja ia aos bares, restaurantes e lanchonetes e... nada! Cadê cerveja? Cadê cachaça? Cadê Pitu?

Contam as más línguas – e eu só estou repassando o que me passaram, sem aumentar um ponto sequer neste conto – que o estoque regulador de cerveja na cidade e região caiu assutadoramente, que o produto já estava sendo racionado no primeiro momento e começou a faltar num estágio mais avançado.

Dizem essas mesmas más línguas que as cervejarias passaram a enviar caminhões e mais caminhões carregados de cerveja para região de Mairi e Várzea da Roça.

Coincidência ou não, no sábado em que Baianinho da Rodoviária viajou rumo a Cassilândia, deixando para trás a Bahia, tudo voltou a normal. Já havia cerveja no balcão, no freezer e nos estoques dos bares, das lanchonetes, dos botequins e nos afins das duas cidades.

Ao se despedir da família, o sobrinho de Baianinho da Rodoviária, o peralta Severino, perguntou-lhe, enquanto mordia o lápis e segurava um caderninho amarelecido, na expectativa de fazer a lição de casa:

- Tio Baianinho, me ajuda a fazer essa tarefa. A metade de 50 é 25. E a metade de 51?

Baianinho pensou, pensou e saiu com essa:

- A metade de 51, sobrinho querido do titio, é meio litro de cachaça.

Todos ficaram rindo. E Baianinho, Alberto e Nivaldo Porto partiram. Partiram rumo a Cassilândia.

CORINO ALVARENGA

 

Bora, Baêa!

Escrita em 1/7/2011 21h33 

Na quarta-feira passada, fui ao Pituaçu para assistir o meu Curíntia contra o Baêa e graças ao bom Oxossi, padroeiro do Curingão do Parque São Jorge, ganhamos por um magro 1 a 0, gol do xerife Chicão, cobrando pênalti, muito bem marcado, por sinal, pelo árbitro brasiliense Sandro Meira Ricci.

- Ladrão! Ladrão! Ladrão! – gritava, em coro, a fanática torcida do Baêa.

– É sempre assim: o Baêa é sempre roubado! Isso nunca muda!

E eu ali, calado, afinal tive que assistir ao jogo entre os torcedores do Baêa, uma vez que o ingresso que comprei na loja Viva Bahia, à avenida Manoel Dias, só me dava direito de ficar entre os tricolores.

Vivi uma noite de ator. Peguei firme no script e procurei fazer o melhor. Estava feliz por dentro, vibrando com meu Curingão, na frente do placar, três pontos garantidos, e eu ali... com cara de pastel, demonstrando uma tristeza que, a bem dos fatos, não sentia.

O futebol nos oferece isso: o fanatismo que pode levar à violência da forma mais brutal, pois não é difícil imaginar o que aquelas milhares de pessoas, fanáticas da cabeça aos pés, não seriam capazes de fazer com um corintiano, ali, bem no meio delas.

Com certeza fariam um picadinho desse pobre cronista e ainda colocariam na minha lápide:

- Aqui jaz um cabra ousado que ousou enfrentar a torcida do Esquadrão de Aço.

Devo confessar que o Baêa jogou muito mais bola do que o meu Curíntia, mas também é verdade que o árbitro – que a torcida chamava de ladrão a toda hora – acertou ao anular o gol impedido do tricolor.

Só que tive que ficar na minha. Um afrodescendente de dois metros por oitenta de largura cutucou no meu ombro e disse, berrando:

- Você viu, galego, que juiz ladrão?!

Fui obrigado a responder: - Eu já sabia, negão: juiz de Brasília só poderia mesmo ser ladrão! Lá é o lugar de ladrão de toda e qualquer categoria.

Resultado: saí do meio daquela fanática torcida tricolor feliz por dentro, com os três pontos conquistados pelo meu timão que nos deram a liderança no disputado Brasileirão 2011.

No portão do Pituaçu, com bandeira e bandana azul e branca, uma torcedora do Baêa, uma morena de fechar o trânsito de qualquer avenida brasileira, me encarou, dizendo, com dedo em riste:

- Tu tem cara de corintiano, galego!

Respondi de pronto:

- Eu? Eu sou Baêa desde a barriga de mãinha! Aliás, quando eu nasci, mãinha disse: “Olhe, Raimundo, como esse menino tem cara de Baêa! Isso aqui vai ser um Tricolor de Aço doente!”

E o pior é que a morenona acreditou. Sorte minha.

CORINO ALVARENGA

 

Estou de férias!

Como é bom não fazer nada! É uma maravilha!

Aliás já estou gostando tanto destas duas semanas de férias que, por não fazer rigorosamente nada, estou até pensando em virar político.

Depois de anos e anos só trabalhando, resolvi dar um descanso para este corpo aqui, ó. Descobri finalmente que não sou de ferro. Toda máquina um dia cansa. E quando cansa, é fogo.

Mas pera aí, mesmo de férias, não agüentei o tranco de não fazer absolutamente nada. Tive uma recaída. Pensei que ia conseguir. Fiquei repetindo isso para mim mesmo para tentar me enganar. Mas o costume ou o instinto falou mais alto.

Acordei logo cedo nesta quarta-feira, limpei o meu canto, fui levar o carro para trocar o óleo, abastecer e fazer manutenção. Aproveitei também para dar uma lavada no carango. Como estou de férias, aproveitei também para fazer umas cobranças no comércio.

Tem uma boa lista de inadimplentes de 2007. Corri um bocado. Recebi até algum dinheiro. Como não tenho que fazer absolutamente nada, resolvi fazer também uma limpeza no quintal aqui de casa. Deu para suar um bocado.

Aproveitando esta quarta-feira de descanso, fui levar a mulher ao hospital, depois comprar remédio após procurá-lo em vão no posto de saúde. Férias é uma maravilha, amigo! Sem fazer absolutamente nada, resolvi montar, no computador, um mostruário de oito páginas, que acabou me consumindo umas quatro horas de trabalho. Ou melhor, de descanso. Afinal estou de férias. Ah sim! O orçamento...

Há temos estou com um orçamento de vários itens de eletrodomésticos para fazer. Como estou de férias, resolvi fazer isso hoje. Deu uma trabalheira abençoada, mas consegui terminá-lo. Só está havendo um probleminha aqui em casa. A família toda está revoltada comigo.

- Como pode, homem? Você não está de férias? E a gente não foi ainda ao clube tomar um banho de piscina?

- Que isso, mulher?! Estou de férias e tenho muito o que fazer e...

- Fazer? Férias é para descansar, não sabia disso, não?

- Pensando bem, você tem razão. Amanhã eu termino o que tenho que fazer. Amanhã, não; depois de amanhã... talvez. Que tal sábado, amor?

- Sábado não vale. Sábado já é final de semana. Férias tem que ser todo dia.

O meu filho Pablo também tem sua reivindicação a fazer:

- Pai, vamos pegar uma praia em Salvador, vai! Tá um calor retado, pai!

- Na semana que vem, filho. Na semana que vem a gente vai.

- Semana que vem, não! Tem que ser hoje, ora, ora!

Interrompi a conversa. Lembrei que tenho que terminar um trabalho no computador que está atrasado faz mais de seis meses.

- Família, vou só fazer um servicinho. Depois a gente se fala.

Depois de muitos e muitos anos só trabalhando, amigo, acredito que estou viciado. E a minha filosofia de vida é “descanso carregando pedra”.

Ou seja, nasci para trabalhar. Não nasci para ser político. Positivamente, não nasci para ser político.

CORINO ALVARENGA

 

O homem capado

Antes de começar a escrever a presente crônica, quero agradecer, desde já, ao meu professor Ivan Fernando Gonçalves Pinheiro, que um dia tentou transformar-me num intelectual, pobre coitado...

O que pretendo discorrer por ora é acerca de uma decisão judicial datada de 1833, no Estado alagoano, tendo o material como fonte o Instituto Histórico de Alagoas.

A decisão judicial, por si só, já é hilária e seria trágica se não fosse cômica. Ou o contrário, como queira. Vamos a essa preciosidade enviada pelo amigo Ivan e depois eu prometo, como sempre, meter a colher de pau no meio da prosa ruim, assim como faria a cassilandense Mozarina, outra ingrata, a exemplo deste colunista, que um dia abandonara a terra de Cassinha. Somos ingratos, sim.

Certíssimo está meu amigo João Girotto, que é de Magda, e está aí firme em Cassilândia, no meu longínquo Mato Grosso do Sul, segurando o leme e mantendo a nau em águas seguras. Segure as lágrimas, Mozarina, e pague um dia a sua dívida com Cassilândia.

Eu também tenho que me penitenciar todos os dias. E o faço com grande zelo. Vamos à historieta judicial. Depois eu volto.

“Sentença Judicial Datada de 1833 Alagoas, 1833 O adjunto de promotor público, representando contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant'Ana, quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em uma moita de mato, sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer a lume, e como ella se recuzasse, o dito cabra abrafolou-se dela, deitou-a no chão, deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará. Elle não conseguiu matrimonio porque ella gritou e veio em amparo della Nocreto Correia e Norberto Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante. Dizem as leises que duas testemunhas que assistam a qualquer naufrágio do sucesso faz prova. CONSIDERO: QUE o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar comella e fazer chumbregâncias, coisas que só marido della competia conxambrar, porque casados pelo regime da Santa Igreja Cathólica Romana; QUE o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar a família de suas vizinhas, tanto que quiz também fazer conxambranas com a Quitéria e Clarinha, moças donzellas; QUE Manoel Duda é um sujeito perigoso e que não tiver uma cousa que atenue a perigança dele, amanhan está metendo medo até nos homens. CONDENO o cabra Manoel Duda, pelo malifício que fez à mulher do Xico Bento, a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE. A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta Villa. Nomeio Carrasco o carcereiro. Cumpra-se e apregue-se editais nos lugares públicos. Manoel Fernandes dos Santos Juiz de Direito da Vila de Porto da Folha Sergipe 15 de outubro de 1833.”

Eu sempre defendo uma ideia acerca de toda e qualquer assertiva judicial ou sentença que sai da cabeça dos magistrados: o segredo está na lei. Se um País conta com leis tacanhas ou obsoletas, as decisões serão igualmente tacanhas ou obsoletas. Muitas serão inócuas; outras tantas, enfadonhas; e quantas seriam risíveis ou burlescas? Cada País tem o povo que merece e as leis que conseguiu redigir.

Os juízes – e aí eu me coloco no lugar deles -, esses pobres mortais obedientes ao ordenamento jurídico e ao Estado de Direito o que podem fazer? Os bons magistrados, meu amigo, apenas picam a caneta no papel e fazem a lei ser cumprida. Quanto aos maus juízes, deixemos de lado as exceções. Não são juízes; são carrascos.

Nós não temos hoje uma Constituição ideal, afinal muitas leis complementares ainda não saíram do projeto, mas dá-se para perceber o quanto evoluímos de 1833 para cá.

Os homens declinaram ao longo do tempo daquela trajetória que mistura mesmice e estagnação – e as leis declinaram concomitantemente.

Ou, lembrando Gibran Khalil Gibran, “a vida não anda para trás e não demora com os dias passados”.

A vida, portanto, caminha para a frente.

E as leis também caminham. Não na velocidade que desejamos, mas caminham.

CORINO ALVARENGA


Cordel Desencantado

3/4/2012 0h

 

Meus amigos, peço perdão

Mas uma história vou contar

O causo do marido ladrão

Que foi punido por roubar

De tão esperto o sabichão

Pôs a mulher em seu lugar!

 

Roubou frangos, roubou dinheiro

Praticou toda malandragem

Comprou vereadores e empreiteiros

Virou craque na gatunagem

Surrupiou hospital e prefeitura

Tornou-se o rei da malandragem!

 

Quem não paga o que deve

Não é homem por inteiro

Pode ser pela metade

Porque pense em tipo treiteiro

Que na longa fila da saúde

Mata e morre por dinheiro!

 

Ganhou o troféu da improbidade

No desgoverno do rumo certo

Homem todo cheio de maldade

Com os dentes sempre abertos

Pra fingir que é bonzinho

E deixar o povo boquiaberto!

 

Comprou votos nos povoados

Distritos e vilas da periferia

Prometendo tudo aos desavisados

Com suas tramas e patifarias

Falando sempre bem amaciado

Pra convencer Josés e Marias!

 

Usando seus intermediários

Ou seja, moleques de recado

Mandou comprar jornalistas

Pra manter o seu reinado

Deu cala-boca em radialistas

Que ficaram de bico calados!

 

Nos cargos de confiança

Preencheu com chantagistas

Que conhecem sua folha corrida

Própria de um vigarista

Enquanto isso ele rouba o povo

Mas sempre deixando pistas!

 

A cidade parou no tempo

Enquanto o casal enriquece

A saúde municipal piorou

Na escola o aluno padece

Não adianta o cidadão

Se acabar de fazer prece!

 

É preciso saber votar

Em candidato decente

Que mude a nossa história

Com um futuro diferente

Pois quem sabe faz a hora

E caminha só pra frente!

 

O desenvolvimento não veio

Não deu certo a transformação

Com o povo eu tô no meio

Pra acabar com a esculhambação

Chegou a hora de dizer basta

Ao desgoverno do ladrão!

 

Até este pobre poeta

O gatuno tentou comprar

Com vantagem de montão

Nem chegou a negociar

E ouviu um sonoro “não”

Pra aprender a respeitar!

 

O dinheiro não compra tudo

Pois caráter não tem preço

Por isso elogio os honestos

Gente que tem endereço

E a quem gostou dos meus versos

Terminando eu agradeço!

 CORINO ALVARENGA


Crônica azeda: Quando o milagre é demais até o santo desconfia

2/4/2012 15h1 - Estamos em ano eleitoral. E ano eleitoral significa que teremos muitos milagres ocorrendo na comunidade.

Até saúde pública com alguma qualidade, na reta da campanha eleitoral, iremos ter. Micareta com artistas que cobram cachês que custam os olhos da cara, também. Bingo!

Aí é uma festa também pra assessores, empreiteiros e outros espertos que podem trabalhar, tranquilamente, em cima do caixa 2.

Agora, naturalmente, é preciso que a dengue dê um tempo e pare de matar as pessoas, afinal elas só votarão se estiverem vivas, e, é claro, mortas não podem ir às urnas para votar errado mais uma vez.

Ano eleitoral também amolece o coração do político e até gente insensível faz as vezes de Papai Noel - ou Mamãe Noel - e, passa, inclusive, a distribuir leite gratuitamente no meio da rua, em cima de carroceria de caminhão, como se pobre fosse animal.

E tome caminhão-pipa, que a seca tá de lascar! E tome cesta básica! E tome cimento! E tome terrenos de loteamentos suspeitos! E tome verba pra associação do vereador que sempre dá calundu!

Caminhão-pipa é igual ambulância na porta da casa do doente: é voto certo. E deixa que o petróleo é todo por conta da prefeitura. O motorista também.

Ano eleitoral é ano também dos velórios. E político que se preza não falta em nenhum. Se o defunto for pobre, deixa com a gente. A prefeitura paga o caixão, a prefeitura paga tudo. A prefeitura, em ano eleitoral, sempre tem dinheiro.

Ano eleitoral também serve para se perceber o quanto político gosta de mentir, de tapear, de fazer o povo de besta.

No primeiro ano, tome porrada no adversário, no antecessor que sempre "deixa dívidas", servindo apenas para começar a pôr a "casa em ordem". Que casa? Que ordem?

Você já viu ladrão pôr casa em ordem?

O discurso é sempre o mesmo: é o município arrasado, não tem dinheiro pra saúde pública, nadica de nada pra educação, pra fazer micareta, blá, blá, blá... Só mudam algumas palavrinhas, o conto do vigário é bem parecido.

No segundo e terceiro ano tem micareta, sim, senhor, meia boca, mas tem.

Agora, no quarto ano, meu amigo, tem que ser de arrombar, que é pra impressionar o povo, que é pra mostrar que a prefeitura trabalha, que ama as festas, que gosta do povo e por aí vai. Aí sobra dinheiro pra fazer comício, pra comprar votos, pra fazer obras eleitoreiras, pra fazer propaganda enganosa.

Se o locutor da voz bem caprichada anda falando mal do prefeito ou da prefeita, dá-se um jeito. Um contrato de publicidade é um cala-boca e tanto. Falou mal do prefeito ou da prefeita, tome verba! E tome real!

A rádio cala, o jornal cala, fica tudo pianinho, todo mundo mudo, sem voz. Falar mal do homem ou da mulher, aqui, não. Tira do ar esse metido daí!

O que um polpudo contrato não faz, meu amigo.

Em ano eleitoral é assim que a banda toca.

Ah, se falsidade matasse!...

Escreva aí: essa cambada já estaria queimando no inferno.

Me engana que eu gosto, doutor! Mas ainda nos resta um consolo: o sangue de Jesus tem poder.

Vigiai e orai, irmão! Reza! Reza! Reza!

E é bom, eleitor, ficar bem atento: quando o milagre é demais... até o santo desconfia.

Aí as vítimas perguntam:

- E quem paga a conta?

Adivinha.

CORINO ALVARENGA